© 2016 por Felipe Sáles

 

O homem-cigarra

July 18, 2017

Escorado sobre o balcão da portaria do edifício, Maneco Lisberto vigiava os ponteiros do relógio quando ouviu um grito; e uma trovoada de móveis, e um alarido de vidraças até uma voz se rasgar por socorro. O porteiro pensou logo em ladrão, mas no caminho já imaginava o que o aguardava.

 

– Calma, dona, tá tudo bem. É só um bichinho…

 

– Bichinho?! Isso aí é um monstro nojento! Toda primavera é essa invasão insuportável!

 

– Que nojento, dona. Sabe alcaparra? Se você refogar as cigarras na farinha, diz…

 

A moça regurgitou antes de despachar o porteiro como se um inseto fosse, usando uma nota de dois reais no lugar da vassoura. Até o porteiro da noite chegar, ele já tinha prestado umas cinco assistências – inclusive a um moleque na calçada que tentava amarrar um barbante no bicho e fazê-lo de pipa. Ao se aproximar do abacateiro, viu um envelope semi-aberto no chão. Era um convite. Sem nome. Para um encontro das embaixadas de Brasília no Palácio do Itamaraty. Ele ficou alguns segundos meio inerte, até ouvir um bate-boca lá na portaria.

 

Era Arnaldo Rabello procurando pelo pacote. Morador do prédio e funcionário do Ministério das Relações Exteriores, ele arrotava suspeitas sem nem ouvir os argumentos do vigia noturno. Maneco tratou de esconder o embrulho e debandar, deixando a cigarra do menino feito pipa avoada. Sem o convite, matutava, Arnaldo não iria à festa – logo não o encontraria lá. Também contava a seu favor uma, digamos, camuflagem social – ele era só o moço que entregava cartas, abria portas e, na primavera, ajudava a conter as malditas cigarras. Não podia perder a chance de estar numa festa daquelas.

 

E Maneco não era de desperdiçar oportunidades. Este era seu segundo emprego na vida, conquistado depois de ouvir o zelador do prédio falando sobre a vaga na fila do banco. Correu até o síndico, disfarçou uma indicação e, como gratidão enviesada, deu um punhado de notas ao colega de serviço. Já o primeiro trampo foi ainda jovem, quando virou peão de obras no canteiro do metrô, ali perto, na Estação Central. É verdade que, também daquela vez, inventou meia dúzia de experiências no ramo. Passou quatro anos na construção, tempo em que mal via os primeiros raios de sol e já se embrenhava embaixo da terra, feito cigarra jovem, de onde saía apenas quando o mundo adormecia. Agora era a sua vez de cantar.

 

No dia seguinte, gorjeou rouquidão ao telefone pedindo folga ao administrador do edifício. Depois seguiu até uma loja de aluguel de trajes para festas, onde trabalhava um amigo dos tempos de metrô. Inventou-se padrinho de casamento, choramingou um fraque no fiado e prometeu pagamento em dobro. E assim o fez – com um cheque sem fundo, naturalmente.

 

Ele subiu a rampa do Palácio como um noivo, mas, em vez da marcha nupcial, ouviu o eco incessante das cigarras. Passeou pela Sala Dom Pedro I e logo veio um garçom oferecendo um ceviche que mal cabia embaixo da unha. Mandou meia olhada, mais para o garçom do que para a comida, e tratou de enfiar tudo na boca. Parecia um catarro temperado em água salobra, mas sorte sua que era pouco. Essa gente ganha tanto dinheiro pra comer feito pobre, pensava, quando viu Arnaldo passar do outro lado do salão. Capengou em si mesmo, sentiu o fraque enforcá-lo e por pouco não derrubou uma escultura. Era possível que o condômino nem o reconhecesse naquelas vestes, mas, não custava evitar.

 

Esgueirou-se até o terraço, onde alguns convivas se concentravam para admirar os jardins suspensos de Burle Marx. Aquele povo, sempre afeito a cochichos, era obrigado a quase gritar para conseguir se comunicar, tamanho o alvoroço que as cigarras faziam naquele fim de tarde. Foi aí que ouviu uma loira de cara esticada lamentar entre os dentes.

 

– Sabe, uma vez estive em Provence, perto de Mônaco, também famosa pelas cigarras. Mas lá elas cantam tão bonito…

 

Maneco não se aguentou e deu uma estrebuchada, atraindo a atenção dos convidados que por ali ciscavam  – entre eles Chang Wang, um embaixador de vista espichada que comentou:

 

– Mas todas são muito saborosas.

 

– Parecem alcaparras… – disse Maneco, meio ao vento.

 

O china sorriu, enquanto a senhora estourou um ponto de botox antes de sair rumo ao banheiro. Maneco viu o embaixador se aproximando e inclinando a cabeça, tal como nos filmes de Bruce Lee, até um sujeito chegar puxando o porteiro pelo braço. Era Arnaldo Rabello. Ele o arrastou e xingou ao pé do ouvido, ameaçando não só expulsá-lo da festa, como também do emprego, “quiçá vai parar na polícia”, ele disse, enquanto Maneco tremia mais pela significância de “quiçá” do que da polícia. Foi quando o embaixador apareceu e, com ligeiras abanadas com as costas da mão, enxotou o algoz. Diante de uma autoridade maior que ele, Arnaldo viu-se como aquele vigia noturno, impedido de argumentar, e achou por bem refurgiar-se em outro andar.

 

Agradecido, o porteiro desandou a contar suas histórias, que deixara o sertão numa forte seca, quando comia lagarto e até rato-rabudo, e depois cigarras com pequi em Brasília, onde, aliás, devido à obra do metrô, passou mais de dez anos debaixo da terra, feito aquelas barulhentas que estavam ali, sabe? Chang Wang ria e repetia, “homem-cigarra, homem-cigarra”, e se danava de perguntar como as conseguia, qual o modo de preparo. Quando a noite caiu, Maneco tinha conquistado seu terceiro emprego na vida: motorista do embaixador da China e caçador de iguarias.

 

Até ganhou um bocado de dinheiro, mas não se pode dizer que o embuste, dessa vez, deu lá muito certo: o embaixador sempre o intimava a degustar os aperitivos. E Maneco, que nunca foi sequer sertanejo, estava quase virando chinês para manter o emprego e toda aquela lorota.

 

Já o chefe se divertia, e na primavera seguinte ameaçaria:

 

– Está chegando a época das alcaparras, hein, homem-cigarra – dizia, só para vê-lo tremer. E depois, alisando o bigode, pensava: a isso dão o nome de tortura chinesa…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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