A moça do vestido amarelo

 

Parte 1: O vestido amarelo

Enquanto estudante de Jornalismo prestes a me formar, eu e mais dois amigos dedicamos todo o jornal do nosso Trabalho de Conclusão de Curso a um único assunto: a prostituição no município de Campos dos Goytacazes, no norte do Estado do Rio, cidade natal dos focas e seus diplomas. Tudo seria elaborado sob a égide do Jornalismo Narrativo, uma forma de jornalismo bastante difundida no exterior segundo a qual os fatos são discorridos como se fossem a mais pura literatura ficcional. Além disso, tem como característica essencial o envolvimento do repórter com os personagens, os fatos e os acontecimentos; mas, nunca pensei que pudesse chegar a tanto.

 

Havia cinco pautas: o funcionamento das agências de prostituição; história da profissão mais antiga do mundo; vida e obra dos travestis; visita a um bordel; e a prostituição no meio universitário – as duas últimas sob minha incumbência. A primeira matéria estava concluída; a segunda está sendo redigida agora. Após alguns muitos contatos com os amigos dos amigos dos amigos – um deles, cafetão e também estudante de Jornalismo –, finalmente consegui uma entrevista. No dia seguinte, às 19h de uma terça-feira na lanchonete Pastel Gigante, próxima ao Parque Alzira Vargas, na Avenida 28 de Março, eu me encontraria com Lúcia. Ela estaria com um vestido amarelo. Não seria muito difícil encontrá-la, afinal.

 

Às 18h53, chegando lá, não havia ninguém ainda. Peço um lanche, acendo um cigarro, abro um livro, e então já são quase 19h20 sem que ninguém parecido aparecesse. Nem termino de pensar isso e avisto na calçada uma linda mulher de 20 e poucos anos, trajando uma blusa amarela e uma saia estampada, cujas descrições eram bastante compatíveis com as que ela tinha me fornecido. Titubeio e, pouco depois, invade o recinto uma mulher com um vestido amarelo. As descrições, no entanto, já não são tão condizentes – além de ser muito feia, tadinha. Ossos do ofício, pensei, enquanto me levantava para começar a entrevista.

 

- Han? Lúcia? Não sou eu não.

 

Maldita realidade; sempre com essa mania de ser menos crível do que a ficção. Qual a probabilidade de encontrar alguém com uma porra de um vestido amarelo até o resto dos meus dias?! Às 19h30, saí da lanchonete bufando de raiva e munido apenas de um acervo de palavrões demasiadamente adequados a ela e sua profissão. Pensei em ligar, mas constatei já ser suficiente ter chegado ao cúmulo da rejeição ao levar bolo de uma vagabunda. Prestes a atravessar a rua, me deparo com uma linda garota de vestido amarelo, parada ao léu num pedaço de calçada distante do ponto de ônibus.

 

- Desculpe incomodar, mas seu nome é Lúcia?

- Felipe?

- Isso mesmo.

- Oi, desculpe! Cheguei atrasada e ainda sujei meu vestido ontem à noite e não deu tempo de lavar. Não tinha outro dessa cor...

- Que nada, tudo bem... vamos ficar aqui mesmo?

- Cê que sabe.

- Vamos naquele bar ali na frente, o Orelhão. Aqui está com muito barulho.

- Tudo bem, pode ser.

 

 

Parte 2: Entre vistas 

No caminho, trocamos trivialidades e contei a coincidência do vestido amarelo. Ela riu desenfreadamente. Uma risada gostosa, fluída do esôfago, alta sem ser vulgar. Tinha um sorriso de dentes perfeitos, emoldurados pela boca bem destacada da superfície da pele, branquíssima, em contraste com os cabelos negros ondulando sobre os ombros. Os olhos, tão escuros quanto, eram gigantescos globos levemente repuxados para os lados. Seu corpo era... conciso; tinha cerca de 1,70m, cujos relevos seriam facilmente destacados e causariam (ainda mais) furor por onde passasse caso usasse os trajes típicos do estereótipo meretriz. Mas não. Com um estilo mais próximo aos hippies, nunca desconfiaria a forma como aquela menina arrumava dinheiro. Paz e amor, garota esperta... é justamente esse o diferencial de seu produto. Já imagino muitos clientes oferecendo grandes montantes. Estava explicado o vestido emporcalhado ontem, plena segunda-feira.

 

Com as cervejas na mesa, ela começou contando o que já fui previamente informado: era mineira, de Belo Horizonte, tinha 22 anos e estudava Medicina. Gostava de cuidar das pessoas, afinal. Após esse prelúdio, o papo fluiu torrencialmente. Apesar de permitir transparecer sua natural espontaneidade, mostrava-se um pouco arredia e insegura com os fatos mais... hum, escusos de sua vida. Queria deixá-la à vontade. Voltamos então a conversar sobre coisas corriqueiras, sua cidade natal, lembranças alheias ao tema central de nosso encontro, músicas, filmes, livros, Campos – "uma cidade muito estranha, cujas duas maiores riquezas estão sepultadas: sua história e seu petróleo". Compartilhávamos opiniões semelhantes, afinal.

 

Em "pouco tempo" o relógio já marcava quase 23h, e eu sabia muito pouca coisa que explicasse a escolha de sua "profissão". Vinha de uma família de classe média que, se não lhe dava tudo o que queria ou precisava, esforçava-se para nada deixar faltar. Começou na vida depois de chegar em Campos para morar na casa de uma tia, há três anos, quando passou no vestibular. O papo de sempre: assediada por um agente nos arredores da Faculdade de Medicina de Campos, com dificuldades financeiras, sucumbiu às sinceras falsas promessas para fazer algumas fotos – mesmo ciente das reais intenções. Aceitou, e elevou ao abstrato o número de experiências sexuais, então restrita a apenas três homens.

 

A morte do pai, pouco tempo antes de saber o resultado do vestibular, a deixou preocupada com o destino solitário da mãe. "Ela insistiu, me incentivou muito para que seguisse meu sonho de carreira. Meu pai era funcionário público, deixou numa condição boa, mas, não sei. Sempre que vou a BH tudo parece muito estranho. Um dia, apareci de surpresa e encontrei a casa cheia de poeira e minha mãe parada perto da janela, olhando o nada. Estava toda arredia. Deu uma desculpa esfarrapada e ficou por isso mesmo. Tenho medo de que esteja escondendo sua real situação financeira. Com a grana que consigo com os programas já ajudo a pagar as despesas, especialmente a mensalidade do curso, de quase R$ 2 mil. Ela e minha tia acham que consegui um bom estágio no Hospital de Guarus".

 

Parte 3: Filho da pauta 

Enquanto contava as histórias, seu olhar se perdia no movimento da avenida ou na mesa ao lado, disfarçando enquanto narrava e brincava com uma tampinha de garrafa próxima ao copo. A diferença era nítida quando lembrava seus tempos de Belo Horizonte: colocava os dois cotovelos sobre a mesa e inclinava o corpo para a frente, estampando as covinhas das bochechas e fixando seu olhar nos meus – e deixando displicentemente à mostra parte dos seios. Certa vez ela percebeu. Timidamente, consertou o decote e disfarçou o olhar nos céus. E fiquei sem saber o que foi mais inusitado: a cena em si ou percebê-la envergonhada por tal situação.

 

Notando que a bebida já lhe alterava, aproveitei para puxar assunto sobre sua clientela. Eram, em sua maioria, empresários de Campos e Macaé, município vizinho. Algumas vezes eles viajavam até Campos para vê-la; noutras, ela ia até o cliente, e na maioria dessas vezes atendia a alguns dos muitos gringos que vão até a cidade atrás do "ouro negro". Em média, 40% do seu faturamento vai para o cafetão – que ela teme até dizer o nome. "É alguém com muitos contatos", justificou. É ele quem corre atrás dos clientes de Lúcia, e é ele também o responsável pelos preços, que nunca são inferiores a R$ 100 e já chegaram a até R$ 500 com os gringos. "Mas é muito raro. Em Macaé já existe muita concorrência. A maioria dos programas concentra-se aqui. São cerca de 10 trabalhos por mês".

 

Estas foram, até então, as únicas frases que trocamos sobre o tema. O nível de empatia elevou a tal ponto que tornou-se cauteloso tanto para eu perguntar quanto para ela responder, e acabamos centrando a conversa em outros diversos assuntos. Ainda não tinha saciado minha curiosidade sobre a parte obscura de sua vida quando a meia-noite já se aproximava, e ela teve que ir embora. Repórter de merda, pensei, enquanto ela cortava meu pensamento pedindo o número do meu telefone e dizendo que poderíamos continuar a entrevista num outro dia. Me ofereci para pagar a conta, afinal, na condição de culpado pelo encontro, mas ela recusou. Quando a deixei em casa, a curiosidade de repórter se sobrepôs pela última vez:

 

- Sua tia não desconfia dos seus muitos "namorados"?

- Eles nunca vêm até aqui. Marco sempre em algum lugar de Guarus, pois é mais distante e corro menos risco de algum conhecido me ver.

- E namorado mesmo, já teve desde que você virou...

- Prostituta. Não, desse dia em diante nunca mais tive namorado, não. Até quis, mas fiquei só nisso. Não tinha coragem de revelar e acabava terminando. Meus amigos mais íntimos até sabem e entendem, ou fingem entender. Acho que no fundo todo mundo sabe. Mas nunca fiquei com um cara que já soubesse o que faço. E dá para perceber quando sabem, pois o tratamento é totalmente diferente.

- Mas você nunca ficou ofendida? Não se sente assim quando te chamam de prostituta?

- Não gosto, mas o que posso dizer? Não tenho certeza também se todos sabem. É uma coisa bem planejada, afinal, discrição é a alma do negócio. Mesmo porque, há muitas "meninas de família" envolvidas nisso. Você não tem noção. Meninas que têm tudo, já transavam por prazer e resolveram cobrar.

- E o cafetão? Ele não implica, não dificulta...?

- Não. Ele diz que podemos ter liberdade na vida pessoal, mas que não devemos de forma alguma expor nosso trabalho para qualquer um, pois como disse, discrição é fundamental. Desvaloriza a nós mesmas. Ele, o cafetão, até nos protege. Uma vez, uns amigos dele lincharam o ex-namorado de uma de "suas" meninas, que batia nela. Ele não nos deixa faltar nada.

- Mas e se vocês quiserem largar essa vida?

- Dizem que podemos, mas não sei. O que me disseram é que, como regra para sair, devemos antes aliciar para o ramo uma ou mais meninas que eles considerem à altura de quem vão perder. Mas já soube de casos em que uma menina teve que pagar uma espécie de multa, altíssima, absurda.

- E você, pensa em sair?

- [...] Não sei. Quem sabe. [...] Olha, preciso ir, me ligue caso precise de mais alguma coisa.

 

E então nos despedimos. Ela se virou e me deu um beijo escorregado entre a bochecha e o canto da boca. Foi o ponto final da pretensa matéria.

 

 

Parte 4: O retorno do vestido amarelo 

Precisei de mais algumas coisas e liguei para Lúcia algumas vezes. Saímos juntos, e em pouco tempo uma paixão mútua foi nos consumindo. A freqüência dos encontros foi se intensificando e os motivos se alternando. A primeira crise da relação não é difícil imaginar: a conciliação de nossos encontros com seu trabalho. Porém, o obstáculo foi levemente superado seguindo à risca o preceito da liberdade irrestrita. Em meio ao prazer havia outros desprazeres, porém: olhares de desdém e risos sutis que refletíamos com igual desprezo, apesar da inevitável fadiga que certas vezes provocavam. Mas o pior, para ela, era o fato de todos os meus amigos saberem da matéria. Seria um inevitável alvo de piadas maldosas, algo pelo qual até então não tinha passado: eu era seu relacionamento mais duradouro. Ela, por sua vez, evitava falar sobre seus programas. Resumia-se a não omitir e a ressaltar o quanto gostava de estarmos juntos, além de não deixar transparecer um certo incômodo quando sabia de um envolvimento meu com alguma outra garota. Mas ambos não permitíamos cobranças um ao outro. Ou pelo menos tentávamos.

 

Entretidos nesses percalços durante duas semanas, após tenebrosas discussões, ela decidiu que arrumaria uma forma de se desvencilhar do cafetão. Argumentei que já tinha passado da metade do curso, poderia depois arrumar um emprego e recuperar o dinheiro eventualmente "perdido" por sua mãe. E eu resolvi não mais escrever matéria alguma. O excesso de envolvimento e proximidade com o caso haviam me consumido por completo, ao contrário do que deveria acontecer. O envolvimento passou do campo profissional, desfilou pelo pessoal e já estava demasiadamente particular. Tinha decidido: não cumpriria mais essa pauta, e o assunto foi banido das reuniões do grupo do TCC. Inexplicavelmente, traçar perspectivas para superar os problemas agiu como um antídoto para nosso conturbado presente. Tudo seria resolvido; bastava apenas um pouco mais de tempo e paciência. Assumiríamos, enfim, a relação.

 

Algum tempo depois, num momento em que já digerira a idéia de me envolver com uma dissidente de tais atividades, e quando sequer me lembrava da motivação do nosso primeiro encontro, marcamos sair numa noite. Fui buscá-la em casa e, enquanto esperava, eis que ela surgiu com o vestido amarelo. Aquele vestido amarelo. Uma enxurrada de dúvidas, lembranças e suposições pairaram imediatamente em minha cabeça, e uma única frase de todos os nossos momentos juntos passou a latejar: "...sujei meu vestido ontem à noite...". Nunca mais a vi. Era como se tudo o que não tinha visto e evitado pensar tivesse sido exposto num milésimo de segundo.

 

Nos falamos mais algumas vezes, e não me furtava de ligá-la à noite. E sempre a encontrava em casa. Sua profissão era um assunto banido, mas ela aproveitava todas as ocasiões para me incentivar a não desistir da matéria. Explicava então a intensidade do envolvimento que se passara, e que não saberia nem queria expor sua vida, nossa vida. "Faça com outra garota então", argumentou. Cogitei a possibilidade e, depois de algum tempo, percebi que contar a todos tudo o que se passara seria uma forma de expurgar meus demônios. Me impus duas condições: revelar pouco sobre nossas intimidades e comprometer o texto ao seu crivo. Quando a mostrei, ela nada editou. Apenas considerou: "Não gostei do tratamento inicial, pareceu meio pejorativo, mas tudo bem. Entendo". Expliquei que era minha visão inicial sobre o assunto. Agradecido, me virei para ir embora e revê-la sabe-se lá quando. Ela então me chamou e disse: "Sabe o vestido? Foi catchup".

 

 

© 2016 por Felipe Sáles