O Mentiroso

 

A história do falso engenheiro que trabalhava numa multinacional, planejava abrir sua própria igreja e se casaria com a irmã do chefe

 

 

 

 

Há mais de 10 anos, o ator Edson de Abreu, de 45 anos, interpreta um único personagem: o de engenheiro civil formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com pós- graduação pela University of California, gerente de uma multinacional e professor da Universidade Estácio de Sá. A interpretação lhe valia mais de R$ 8 mil mensais, mas só até ontem, quando o delegado Antenor Lopes Martins Júnior, da 13a DP (Ipanema), desvendou o esquema e encerrou a promissora carreira de Edson. Que ainda tinha se recém-formado como teólogo, planejava fundar sua própria igreja e estava prestes a se casar com a irmã do chefe.

 

Em 1988, ele falsificou o diploma da UFF e entrou no mercado de trabalho exibindo os conhecimentos adquiridos no curso técnico de edificações do Cefet de Campos, no Norte Fluminense, sua cidade natal. O falsário ainda teve o cuidado de tirar a tradicional foto vestindo uma beca. Em seu extenso currículo, consta até o cargo de agente de negócios da Firjan. Até ontem, ganhava R$ 5.631 como “Gerente de Suporte ao Produto da Sinteq” (uma multinacional, fundada há mais de 60 anos, que prestava serviços à Petrobras), além de R$ 2.500 como professor de “Marketing, administração e negócios”, na Universidade Estácio de Sá. Ninguém na Sinteq quis se pronunciar sobre o caso. Já a Estácio informou que “vai acompanhar as investigações e que neste semestre o 'professor' não estava lecionando”.

 

Edson conseguiu – a polícia ainda investiga de que forma – uma identidade falsa com o nome Eddy de Abreu, por meio da qual movimentava cartões de crédito (American Express, Bradesco Latino e Chase, dos Estados Unidos) de contas no exterior. Chegou a morar quatro anos nos Estados Unidos, trabalhando como taxista e ator, até aprender o “ofício” de falsário.

 

 

Um golpe quase perfeito no sistema 

 

A carreira de Edson naufragou depois que seu destino cruzou com o do delegado Antenor – naquela que seria a derradeira etapa para o último golpe no sistema. Isso porque, em dezembro de 2008, ele ganhou na Justiça o direito de mudar o nome para Eddie, como sempre foi conhecido. Com isso, abandonaria as identidades anteriores e ficaria com todos os documentos em um novo nome – limpo de quaisquer fraudes.

 

De posse da sentença, conseguiu até tirar passaporte. Mas aí começou seu azar: ao tentar tirar uma nova carteira de identidade no Detran, funcionários desconfiaram do fato dele tirar a terceira via do documento em tão pouco tempo e, por pura burocracia, remeteram o caso à 13a DP. Edson, então, passou a ir várias vezes à delegacia – e, abusando de certa arrogância, exigia que o delegado tomasse providências rápidas e liberasse o documento. Ousado, chegou a ir à chefia do Departamento de Polícia da Capital denunciar o delegado. Aí foi demais.

 

De volta à delegacia, deparou-se com um delegado furioso, que – quase cordialmente – solicitou, então, sua identidade. Edson disse que não estava com o documento – mas, puxou a carteira para pegar a habilitação de motorista, sob displicência suficiente para Antenor notar um documento de identidade com ele. O delegado, então, notou que a data de nascimento e os nomes dos pais eram diferentes daquele que contava na carteira de motorista.

 

– Se ele conseguisse isso, seria o golpe perfeito – contou o delegado Antenor. – Tudo novo e limpo para fazer o que quisesse.

 

Edson confessou o crime e em seu carro foram encontrados vários documentos falsificados – como diplomas, identidades e até dois CPFs. Ele foi indiciado por falsidade ideológica, uso de documento falso e falsificação de documentos públicos e privados, penas que, somadas, podem chegar a 15 anos.

 

 

Acusado formou-se em teologia e iria fundar sua própria igreja 

 

A vida de Edson até parecia uma festa. Bem de vida, tinha um apartamento em Copacabana, trabalhava numa multinacional em Macaé, no Norte Fluminense, e tinha acabado de se formar em teologia pela Universidade Metodista de São Paulo. Noivo da irmã do chefe da Sinteq, foi preso logo depois de comemorar o 45o aniversário, em 31 de março – véspera do Dia da Mentira.

 

A noiva chegou aos prantos na delegacia, dizendo que o amava e que não se importava com as acusações. Estava acompanhada do irmão Adriano Correa, que não teve a mesma clemência: anunciou a demissão na porta da delegacia.

 

Edson é descrito pelo delegado como uma pessoa extremamente inteligente, com fluência em espanhol e inglês. Ele teria começado a falsificar documentos nos Estados Unidos depois de ser deportado. Não tem passagens pela polícia brasileira, mas o delegado Antenor pediu à Polícia Federal para verificar sua ficha criminal no exterior.

 

Ao que parece, ele pretendia mudar de ramo. Junto dos documentos falsificados, o delegado encontrou uma carteira estudantil da Universidade Metodista de São Paulo. Edson admitiu ter se tornado pastor, com o objetivo de fundar sua própria igreja.

 

 

Arrogância 

 

Entre os colegas de trabalho, Edson não parecia ser muito querido. Vigias da empresa gargalharam quando souberam, pelo Jornal do Brasil, do triste fim das aventuras de Eddie, o falso engenheiro.

 

– Ele reclamava de todos, era muito arrogante. Ninguém gostava dele – contou um dos vigias, que não quis se identificar. – Isso vai sair na TV? Vou ligar para todo mundo avisando para assistirem!

 

O advogado de Edson, Mozar Carvalho, defende que o cliente é “vítima de transtorno obsessivo”. De acordo com Mozar, Edson tinha fixação pelo nome “Eddie” e sempre quis usá-lo oficialmente.

 

– Tudo não passa de uma grande confusão – garante Mozar, que admite conhecer Edson “há anos”, mas, mesmo assim, desconhecer se ele de fato formou-se em engenharia ou por quê teria mudado os nomes dos pais na identidade.

 

– É uma pessoa com transtorno obsessivo compulsivo... quer dizer, compulsivo não, só obsessivo. Ele nunca fez mal a ninguém, não é um estelionatário. Seu único problema é o nome.

 

 

 

© 2016 por Felipe Sáles